Um passeio pelas vinícolas do Chile, partindo de Santiago

Há quase um ano, no dia 27 de fevereiro de 2010, o Chile foi sacudido por um forte terremoto. A indústria vinícola do país foi uma das mais afetadas, com enormes perdas. Várias bodegas ficaram destruídas: barricas foram lançadas ao chão, tanques de aço inoxidável ficaram amassados como latas de refrigerante e montanhas de garrafas se quebraram.

– Mesmo estando mais longe do epicentro, tivemos grandes prejuízos. A cave virou uma piscina de vinho – recorda Matias Rivera, diretor e enólogo da Santa Helena, uma das maiores vinícolas do país, espalhada por diversos vales.

Como consolo, o ano de 2010 teve uma ótima safra. E, ao que tudo indica, 2011 também promete. Esta é uma colheita histórica, que está mexendo com os brios dos produtores. Uma ótima oportunidade de visitar o país, que está começando agora a colher os cachos das videiras: primeiro, as brancas e, até o começo de maio, as tintas. É tempo de festa e muito trabalho, período ideal para se visitar as adegas. Um ponto favorável é a facilidade de acesso: entre as mais de dez zonas vinícolas diferentes que o país possui, as mais importantes estão perto de Santiago, a, no máximo, duas horas de carro. Mas dá até para ir de metrô para algumas das bodegas, que recebem os turistas com ótima estrutura: visitas guiadas, degustações, cavalgadas, bons restaurantes e pousadas.

Vinícolas históricas ficam perto da capital

Certa vez, viajando em família, decidimos visitar uma vinícola. Pegamos um trem na estação Tobalaba do metrô, a mais próxima ao nosso hotel. Quando começamos a trafegar na superfície logo avistamos, à esquerda, os extensos vinhedos da Cousiño-Macul. Estávamos nos aproximando do nosso destino. Depois de cerca de 20 minutos de viagem, descíamos na comuna de Macul, na estação Rodrigo de Araya. Pegamos um táxi, que em três minutos (e menos de R$ 5) nos deixou na porta da Viña Santa Carolina, a apenas seis quilômetros da Plaza de Armas, no Centro de Santiago.

A facilidade de acesso a algumas vinícolas próximas faz de Santiago um destino perfeito para os apreciadores do vinho, ou mesmo aqueles que apenas têm curiosidade a respeito da bebida. Combinando metrô com táxi ou ônibus é possível ir rapidamente a propriedades como a Concha y Toro e a Cousiño-Macul, às margens da ferrovia, onde se chega por uma curta caminhada (mas que não é nada recomendável no sol forte do verão chileno).

Além da conveniência no acesso, visitar essas vinícolas tem alto valor cultural. São as chamadas bodegas históricas, fundadas ainda no século XIX, como a Santa Carolina, de 1875, que foi declarada Monumento Histórico do Chile em 1973. O passeio pela propriedade começa no belo jardim, com taças de vinho branco servidas sobre barricas. A guia conta a história do lugar e apresenta parte do prédio em estilo colonial espanhol, onde ficam salas de reunião e documentos antigos. De lá, o grupo, nunca muito grande, segue para o ponto alto do roteiro: a visita às caves subterrâneas, uma impressionante construção com paredes de pedra com estrutura apoiada em arcos lindíssimos. Parece um templo.

Lá dentro estão as barricas – mesmo no verão, o lugar é naturalmente fresco, condição fundamental para a conservação da bebida. Ali é servida uma taça de tinto. O programa termina na lojinha moderna, onde é possível comprar lembranças de viagem, livros, garrafas e uma imensa variedade de apetrechos ligados à bebida, como abridores. É uma boa oportunidade de provar os rótulos mais caros, como o VSC e a linha  

Reserva de Família, vendidos em taça.

Uma gigante do setor, a Concha y Toro, criada em 1873, é um programa turístico fundamental para os que visitam Santiago, interessados ou não em vinho. É quase tão obrigatório quanto visitar o Mercado Central da capital.

– Hoje o Brasil representa cerca de 70% dos nossos visitantes – calcula María Alejandra Vallejo, gerente de mercado para a América Latina e enóloga.

Nem seria preciso dizer. Basta olhar para os grupos que circulam e para os que ocupam as mesas (na nossa visita, tinha até um visitante com camisa do Flamengo), para perceber que somos esmagadora maioria. A estrutura de visitação acompanha o gigantismo da empresa. Faz sucesso o momento em que é contada a história do Casillero del Diablo, uma adega que fica junta à cave, nos subterrâneos da fazenda. Um áudio com voz macabra explica a lenda: o dono da vinícola, don Melchor Concha y Toro, guardava os seus melhores vinhos nesta adega. Mas muitos eram roubados. Ele então espalhou a notícia de que aquele era o esconderijo do diabo. Nunca mais aconteceu outro furto.

Depois do passeio, que inclui também os vinhedos, os turistas seguem para o prédio que abriga loja, bar e restaurante. Vale ficar atento aos vinhos servidos no dia, muitas vezes há raridades (quando estivemos lá estava sendo servido o Don Melchor 1988), e sempre estão disponíveis os ícones, como Almaviva e Carmin de Peumo.

A Santa Rita tem uma estrutura ainda mais completa que a da Concha y Toro, incluindo o Hotel Casa Real, o Museu Andino e o ótimo restaurante Doña Paula. Sugestões? Vieiras em molho de coentro, camarões ao pil-pil, blinis de salmão defumado, costelinha de porco e ossobuco com molho de merlot e nhoque.

Para muita gente, porém, o esquema megaprofissional e a estrutura das grandes vinícolas é meio sem graça. Muito mais interessante é visitar as empresas menores. Uma das mais lindas é a Odfjell, com vinhedos cheios de flores e uma criação de cavalos nórdicos dóceis e belos, que são uma ótima maneira de se passear pela propriedade. Outra bodega menor, que também tem criação de cavalos, é a Haras de Pirque, uma das mais belas vinícolas do mundo, em formato de ferradura.

Casablanca e San Antonio: berço dos melhores brancos

Don Melchor que me perdoe, mas neste calor que faz no Chile no verão, bom mesmo é beber uma tacinha gelada de um branco, de preferência um sauvignon blanc bem fresco. Grande parte dos melhores exemplares dessa categoria são produzidos nos vales de Casablanca e San Antonio, menores, mas berços de grandes vinhos, como os produzidos pela Casa Marin, a apenas cinco quilômetros do mar. É justamente a proximidade das águas frias do Oceano Pacífico que cria condições perfeitas para a elaboração de brancos (e também de pinot noir, os melhores do Chile). Uma parada em Casablanca pode ser um complemento perfeito para o passeio praiano a Viña del Mar (a estrada passa bem no meio do vale).

A Casa Marin não só produz alguns dos vinhos mais elegantes do Chile, como tem uma ótima estrutura de visitação, com várias tipos de tour e uma agradável pousada, que funciona de setembro a maio (uma curiosidade: de maio a setembro, a Casa Marin abre as portas do seu “Departamento de nieve y vino”, na estação de esqui de Valle Nevado). É possível conhecer a propriedade caminhando ou pedalando, fazendo um piquenique ou jantando, no primeiro sábado de cada mês, na casa de Maria Luz Marin, dona da bodega. Os programas são superexclusivos – para participar das atividades no vinhedo, os grupos têm no máximo seis pessoas.

Quem apresenta a melhor estrutura na região, porém, é a Matetic, em Casablanca, uma vinícola moderna, com hotel (apenas sete quartos) e restaurante. São quatro tipos diferentes de tour, com preços entre R$ 35 e R$ 120 (este último inclui a degustação de quatro vinhos e almoço).

Para os que apreciam a gastronomia, é praticamente uma obrigação visitar o restaurante da Viña Indomita, também em Casablanca, sempre cotado entre os melhores do país, comandado pelo chef Oscar Tapia. Seguindo o estilo da bodega, ele serve um cardápio moderno fincado em receitas e ingredientes tradicionais, com alguma influência europeia e oriental, como os rolinhos de abacate e centolla.
Cavalos e bicicletas no Vale do Rapel

Para os turistas realmente interessados em vinho, além das bodegas históricas, é obrigatório dedicar pelo menos três dias ao Vale do Rapel, subdividido em duas denominações, Colchágua e Cachapoal. As vinícolas de Colchágua têm ótimos hotéis e restaurantes, e muitas possibilidades de programas ecológicos e rurais, como participar de cavalgadas ou caminhadas. Além disso, alguns dos vinhos produzidos ali estão entre os melhores do Chile, favorecidos pelo clima, que no verão apresenta dias muito quentes seguidos de noites muito frescas, por causa da influência das águas do Pacífico.

Junto com o Vale de Colchágua, Cachapoal forma o Vale de Rapel, que é um dos melhores lugares para se cultivar a carmenère, uva mais emblemática do país. A localidade de Peumo é o berço de alguns dos melhores vinhos do Chile produzidos com esta casta, como o Carmin de Peumo, da Concha y Toro; o Herencia, da Santa Carolina, e o Rivalta, da Santa Ema. Mas apesar de toda a badalação recente em torno de seus produtos, o Vale de Cachapoal ainda não tem tanta infraestrutura turística quanto o Vale do Maipo e Colchágua.

Uma das vinícolas que melhor recebe os visitantes é a Anakena, que tem cinco modalidades diferentes de tour (o que varia, na prática, é a qualidade das bebidas degustadas ao final) e restaurante, que funciona sob reserva. Outra bodega com boa estrutura de recepção é a Altair, que produz alguns vinhos bem cotados, como o Sideral, e o batizado com o nome da bodega, que homenageia a estrela mais brilhante da constelação de Áquila. Foi essa a inspiração para o passeio noturno pela propriedade, um dos tipos de visita que são oferecidos. Primeiro, a cavalo, os visitantes vão até um mirante com vista privilegiada do vale.

Depois o grupo visita a plantação, e então segue para a moderna bodega, que parece ainda mais linda à noite, quando ganha uma iluminação especial. Outro programa que faz sucesso toma um dia inteiro, e também tem cavalgada, além de um almoço no restaurante.

Cachapoal tem ainda uma das vinícolas mais antigas do Chile. Fundada em 1824 em Peumo, a Viña La Rosa continua sendo tocada pela mesma família Ossa, hoje já com a sexta geração comandando a bodega.

VALE DO MAIPO

Concha y Toro: Funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h. Fecha aos domingos e feriados. A visita custa US$ 12. Tem restaurante, loja e bar de vinhos. Av. Virginia Subercaseaux 210, Pirque. Tel. 56 (2) 476-5680. www.conchaytoro.com

Cousiño-Macul: De segunda a sexta-feira, visitas entre 11h e 16h. Sábados, às 11h e ao meio-dia. Entrada: R$ 25. Av. Quilín 7100, Peñalolen, Santiago. Tel. 56 (2) 351-4135. www.cousinomacul.cl

Haras de Pirque: Visitas devem ser agendadas pelo site. Fundo La Rochuela, Camino San Vicente s/n, Sector Macul, Pirque. Tel. 56 (2) 854-7910. www.harasdepirque.com

Odfjell: Camino Viejo a Valparaiso 7000, Padre Hurtado, Santiago. Tel. 56 (2) 811-1530. Visitas devem ser agendadas pelo site. www.odfjellvineyards.cl

Viña Santa Rita: Tem hotel, restaurante, loja e museu. O tour custa R$ 30. Camino Padre Hurtado 695, Alto Jahuel, Santiago. Tel. 56 (2) 362-2520. www.santarita.com
 
VALE DE CASABLANCA

Indomita: Funciona todos os dias, das 10h às 17h. Ruta 68, km 64. Tel. 56 (2) 215-3900. www.indomita.cl

Matetic: Moderna, tem hotel (diária a partir de US$ 460) e restaurante. São três tipos de visita, com preços entre R$ 35 e R$ 120 (com almoço). Fundo Rosario, Lagunillas. Tel. 56 (2) 595-2661. www.mateticvineyards.com
 
VALE DE SAN ANTONIO

Casa Marin: Degustações custam entre US$ 17 e US$ 28. Tem hotel com diárias a US$ 150 e várias atividades exclusivas. O programa de um dia inteiro durante a colheita sai por US$ 59. Tel. 56 (2) 334-2986. www.casamarin.cl

VALE DO COLCHÁGUA

Casa Lapostolle: Conta com um ótimo hotel. Diárias a US$ 400 por pessoa. Tel. 56 (7) 295-3360. www.casalapostolle.com

Vik: Vinícola novata, está construindo um fabuloso complexo enoturístico em Villahue. Já funciona um exclusivo hotel de quatro quartos (diárias a US$ 500 por pessoa). Tel. 56 (2) 248-2223. www.vik.cl

Viña Montes: A vinícola foi construída seguindo as regras do feng shui. Tel. 56 (2) 248-4796. www.monteswines.com

Viña La Playa: Tem um hotel bastante agradável (até dia 30 de abril está com 20% de desconto, com diárias a partir de US$ 140) e um restaurante que serve boa comida. Podem ser organizadas cavalgadas e outros programas. Camino a Calleuque s/n, Peralillo, Santa Cruz. Tel. 56 (2) 657-9991. www.hotelvinalaplaya.cl
 
Viu Manent: Tem café, restaurante e centro equestre. Aberto diariamente das 10h30m às 16h30m. Carretera del Vino km 37, Santa Cruz. Tel. 56 (2) 840-3181. www.viumanent.cl
 
VALE DO CACHAPOAL

Altair: Visitas acontecem de segunda-feira a sábado, entre 9h e 20h (preços de R$ 65 a R$ 250. Tel. 56 (2) 477-5598. www.altairwines.com

Anakena: Tem restaurante, loja e diversas atividades, como piqueniques e cavalgadas. Camino Pimpinela
s/n, Requínoa. Tel. 56 (7) 295-4203. www.anakenawines.cl

Viña La Rosa: É uma das mais antigas do país, fundada em 1824. Ruta H 66-G km 37, Fundo La Rosa, Peumo. Tel. 56 (2) 670-0620. www.larosa.cl
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